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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

[agência pirata] QUANDO A "REVOLUÇÃO" MUDA DE RUMOS

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:: trdç :: Ricardo Cavalcanti-Schiel ::

Fora uma reação natural às ações autoritárias do governo, esta revolta insana foi consequência da incapacidade e da impossibilidade de resolver, de forma racional, os problemas catastróficos acumulados na Ucrânia após a desarticulação da União Soviética. Problemas que se agravaram com a chegada ao poder de Yanukovich. Por um lado, a revolta demonstrou a debilidade do seu governo e, por outro, que os líderes e as massas não têm nenhuma compreensão racional do que acontecerá depois, do mesmo modo como não sabem a que realmente aspiram, no caso de um eventual triunfo.

O problema principal está nas contradições que se acumularam no país durante quase um quarto de século: o saque dos bens nacionais por parte dos novos ricos, o aparecimento e o forte aumento da injustiça social, uma enorme desigualdade econômica e política e, como consequência de tudo isso, uma incrível decomposição moral de toda a sociedade, o que provocou a corrupção generalizada em todos os níveis.

Esse problema não tem solução nem em um protesto de rua, nem dentro dos procedimentos legais do Estado, incluindo todo tipo de negociação ou “mesas”, que servirão não mais que como válvulas de escape.

Em primeiro lugar, a solução do problema é impossível porque o atual Estado ucraniano é uma organização política da oligarquia financeira e econômica e da burocracia que representa seus interesses. O objetivo dessa organização é a exploração de outros grupos sociais, ora manipulando-os, ora reprimindo-os, para manter-se no poder. A mudança dos personagens no governo, o cumprimento formal de alguns procedimentos democráticos e inclusive a mudança de várias leis dentro de um Estado desse tipo não significam muito, já que não mudam a essência do modelo.

Em segundo lugar, a mudança fica impossível porque, com a crise econômica global, a situação degradou-se consideravelmente. Um relativo bem-estar e um boom consumista às vésperas da crise, graças ao sistema de crédito, geraram a ilusão da chegada ao “paraíso capitalista”. A crise destruiu essa ilusão, levando o país de volta à sua realidade, submergindo-o na pobreza e no desemprego. Da mesma maneira que no resto da resto de Europa, isso agudizou as contradições econômicas e sociais. A degradação rápida das condições econômicas de uma imensa maioria dos ucranianos foi acompanhada de um igualmente rápido enriquecimento dos clãs oligárquicos e de certas figuras.

Além disso tudo, chegou ao poder o grupo mais reacionário de toda a história da Ucrânia independente, grupo que instalou uma ditadura do capital de origem criminosa, e que se apóia na força da polícia e de delinquentes comuns, à semelhança de alguns regimes latino-americanos do século XX. Se o “fundador” do sistema oligárquico criminoso, o primeiro presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma, compreendia e respeitava a existência de certos limites que não deviam ser ultrapassados — o que demonstrou os acontecimentos não violentos da “revolução laranja” de 2004 —, os representantes do clã de Yanukovich simplesmente não veem esses limites. Kuchma pôde aposentar-se politicamente, e agora é conhecido como mecenas, vendendo a imagem de um “avozinho generoso” que ajuda as crianças. As figuras do atual governo não podem deixar o poder, porque entendem que, se o abandonam, serão alcançados pelo castigo por aquilo que fizeram.

A construção de um regime fascistóide começou imediatamente depois da chegada de Yanukovich ao poder. Essas são algumas das etapas: a mal chamada reforma judicial, que permitiu ao governo tomar o controle total da justiça do país; um golpe constitucional no outono de 2010, que permitiu ao governo, e a Yanukovich pessoalmente, usurpar o poder, arregimentando prerrogativas excepcionais para as quais não fora eleito; a imposição de um novo Código Fiscal, contendo um ataque contra a pequena e média empresa, acompanhada da repressão policial dos seus tímidos protestos; a imposição de um Código de Trabalho abusivo e de um Código de Moradia expropriador, com o objetivo de suprimir ao máximo os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos; e, logo em seguida, uma série de expropriações arbitrárias de dinheiro e de imóveis em favor do capital oligárquico, que, como dissemos, é a base econômica e social do governo. A isso tudo acompanhou-se um permanente enriquecimento dos clãs oligárquicos, incluindo o mais próximo ao governo, chamado “A Família”, junto com a concentração dos bens públicos nas mãos de um pequeno grupo de novos ricos.

Antes de 19 de janeiro deste ano, os protestos se limitavam a declarações exaltadas, promessas, ameaças, festa e cantos na Praça da Independência de Kiev, que hoje é midiaticamente conhecida como Euro-Maidan (“maidan” é praça em ucraniano). Os “líderes” estavam preocupados com seus futuros ganhos eleitorais. Dava a impressão de que eles tinham medo de tomar decisões e depois ter que arcar com elas. A massa repetia o refrão delirante de uma “revolução apolítica”. A assembleia popular de 19 de janeiro, a poucas horas dos enfrentamentos, acabou com um escândalo: diante da verborreia dos “líderes”, o povo vaiou e exigiu a apresentação de um plano concreto de ações e a nomeação de um dirigente capaz de encabeçar o processo e tomar as responsabilidades.

Falou-se muito de formas não-violentas de protesto, das quais a mais forte deveria ser a greve geral. Ela foi prometida em reiteradas oportunidades, mas nunca se concretizou, por conta da mesma incapacidade organizativa e ideológica dos “líderes” “pró-europeus”.

Um dos traços mais repugnantes do atual governo é o fato que as forças da ordem pública começaram a incorporar maciçamente delinquentes e o lumpesinato na luta contra os ativistas. Os delinquentes, contratados pelo governo, realizaram vários ataques contra pessoas, bens públicos e privados, para que, em seguida, os manifestantes fossem acusados de tais fatos. A delinquência urbana aumentou enormemente. Os próprios manifestantes tiveram que organizar “guardas populares” para manter a ordem no centro da cidade.

A apoteose da reação ao governo seguiu-se, sem dúvida, à aprovação, em 16 de janeiro, da lei que proibia todo tipo de protesto cidadão. Esse foi um ato absurdo e ilegal, aprovado em poucos minutos pela unanimidade dos obedientes deputados. A mensagem parecia dizer o seguinte: somos uma elite, podemos decidir e fazer o que quisermos e o seu dever é obedecer ou ir presos. Essa atitude demonstra uma total incapacidade do poder ucraniano em ver a realidade, superestimando sua capacidade de controlar o país.

Nesses dias, muitos falam de uma aplicação na Ucrânia do sistema russo-bielo-russo, onde qualquer protesto se reprime já no seu surgimento. Mas isso não é possível. Na Rússia, o governo conta com uma potente base econômica, principalmente pela exportação de matéria-prima. A taxa de aprovação de Putin, depois de quase 15 anos de governos consecutivos com estabilidade, supera os 50%. Na Bielo-Rússia, apesar dos problemas, as empresas industriais e agrícolas funcionam, há praticamente pleno emprego, a saúde e a educação continuam gratuitas e estatais, os programas sociais, culturais e esportivos funcionam bastante bem, e Lukashenko tem o apoio da grande maioria da população. O atual governo da Ucrânia não tem forças nem meios comparáveis aos russos ou bielo-russos. Além disso, Yanukovich e seu grupo não têm o mesmo nível de aprovação cidadã que gozam Putin e Lukashenko.

Durante muito tempo, a Ucrânia, apesar da complexa situação econômica e política que se seguiu à desarticulação da URSS, se manteve em paz cidadã, à diferença de quase todos os vizinhos da região. Yanukovich e seu governo já entraram para a história como os que conseguiram quebrar essa tradição, levando o país à beira de uma guerra civil.

Causa surpresa e admiração o fato de que, em uma sociedade que há pouco parecia definitivamente sumida na corrupção, na indiferença e no individualismo, apareçam hoje tantas pessoas dispostas a lutar por uma ideia, chegando às últimas consequências.

Os protagonistas dos combates de rua são nacionalistas radicais, mas justamente eles parecem refletir agora os ânimos das massas indignadas. Durante os choques de 1º de dezembro de 2013, chamavam os ultranacionalistas violentos de “provocadores”. Agora, ninguém mais se atreve a criticá-los. O motivo dessa mudança é evidente: o poder cruzou um limite, e isso radicalizou os cidadãos. Um claro exemplo são as imagens de 19 de janeiro, durante os primeiros combates no centro: um senhor de idade, quase um velhinho, de aspecto claramente “não radical”, parecido com um operário, levantando um ferro de construção gritava: “—Basta! Vão à merda! Basta de aguentar essa corja! Agora é guerra!”
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